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Gosto de nadar porque me sinto completamente no domínio do meu próprio corpo. Dito meu ritmo, minha força, minha velocidade; são variáveis claras, exatas, que não abrem margem para subjetividades. É como matemática: as fórmulas pressupõem resposta. Lógico. Certeiro. Seguro. Eu treinava para competir quando era adolescente e não me esqueço de nenhum dos detalhes técnicos que éramos obrigados a praticar incansavelmente, de segunda a sábado, sem exceção. Disciplina, esforço, controle. Uma rede semântica que me é tão familiar. Confortável, quase. A rotação dos ombros para braçadas mais longas. As mãos firmes, que precisam desenhar um s dentro da água, para diminuir o atrito. A ondulação do nado borboleta, que começa no torso e flui para quadris, pélvis, pés. Vejo minhas próprias articulações trabalhando sob meu comando e a água ceder diante de mim. Há uma certa sensação de poder envolvida no nadar. É impossível resistir a ela.
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Fábio e eu nos sentamos lado a lado nas cadeiras desconfortáveis da recepção do cartório. Seguro nossas vias da certidão de nascimento entre os dedos com uma força desnecessária. Meus pés balançam freneticamente, quase sem tocar o chão. Não entendo a necessidade de agendar um agendamento para agendar um casamento. A escrevente nos pergunta se queremos comunhão parcial de bens. Nos entreolhamos por uma fração de segundo antes de responder que sim, secretamente nos perguntando se por acaso demos a resposta errada diante de seu olhar inquisidor. Em seguida, ela me pergunta se quero incorporar o sobrenome dele. Digo que não. Mais uma vez, não sei se acertei a resposta. Voltamos para casa com uma data e uma lista de afazeres para a pequena celebração que escolhemos organizar. No dia seguinte, começo a ser lentamente acometida por uma ansiedade paralisante, e demoro para localizar sua origem. De alguma forma sempre me pareceu, de alguma forma irracional, que assinar os papéis de um casamento poderia equivaler a adentrar um portal para uma dimensão onde não terei escolha a não ser me desmontar, deixando tantas e tantas partes da mulher que sou pelo caminho. Acho que, diante de uma vida que já inclui um financiamento compartilhado, cachorro e planos para décadas, assinar os papéis de um casamento é um mero gesto - mas meros gestos podem significar grandes coisas. Podem evocar nossos medos: de se entregar demais, de se perder da própria vista, de baixar os últimos indícios de guarda. De perder o controle.
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Me pego contando os dias para a data marcada, mas especialmente para sair de férias. Sinto os ares da exaustão à espreita, no pé do meu ouvido, com as mãos em torno do meu pescoço, sufocando-me aos poucos. A agenda lotada. As mensagens e e-mails acumulados. Problemas que duvido realmente saber resolver mas que eventualmente resolvo. Abraço tudo, dou conta de tudo. Uma solucionadora nata. Pisco com dificuldade diante da tela do notebook, a vista cansada, a cabeça inquieta. Este tem sido um ano de muitos desafios profissionais, e no meio deles tento me construir como a líder que gostaria de ser. Me pergunto se vou conseguir sair de férias sem me preocupar com absolutamente tudo que vai acontecer na minha ausência e nessa pergunta encontro resposta para o que não perguntei. A falha evidente. Liderar, no fim do dia, também é confiar. É saber quando há de se deixar ser. Deixar estar. Afrouxar as rédeas. Não tenho sido capaz de afrouxar nada. Minha analista me pergunta se não há uma parte de mim que talvez goste de se sentir indispensável - se o sacrifício também a serve. O controle me seduz dentro e fora d'água. Me faz poderosa e, então, me soterra com suas repercussões. Imagine como seria, ela me propõe, apenas por um momento, não solucionar?
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did I escape, I wonder?
my mind winds to you
old barnacled umbilicus, Atlantic cable,
keeping itself, it seems, in a state of miraculous repair.
in any case, you are always there,
tremulous breath at the end of my line,
curve of water upleaping
to my water rod, dazzling and grateful,
touching and sucking.
i didn’t call you.
i didn’t call you at all.
nevertheless, nevertheless
you steamed to me over the sea,
fat and red, a placenta
paralyzing the kicking lovers […]
— "Medusa" - em "Ariel", Sylvia Plath
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Um amigo no trabalho me diz: às vezes o que está faltando é deixar um prato cair mesmo. Eu digo que não sei como fazer isso. Ele ri porque não sabe também. Sinto raiva com mais frequência do que gostaria ultimamente. Outra amiga diz: deixa que alguém resolve. Sim, eu sei. Eu sei, penso. Mas e se este for justamente o ponto? Deixar para o outro - quem quer que ele seja. A aterrorizante sensação de se dar conta de que é possível se remover da central de comando. Não para sempre, não em definitivo, mas ainda assim remover-se vez ou outra. E se este for o ponto, então? Perceber-se dispensável. Perceber-se à deriva. A relutância em deixar ir. Em afrouxar. Um bálsamo e uma apunhalada. A espada e o elixir.
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Há um outro lado da moeda no ato de nadar: enquanto o corpo se rende ao meu controle, a cabeça fica à mercê de si mesma. Tento me concentrar nas braçadas, na frequência de respiração, na soma de idas e voltas, na metragem. Mas meus pensamentos ganham vida própria enquanto estou na água. Escapam de meus dedos enquanto controlo a sincronia dos meus braços, pernas, pés. Me detenho na praticidade dos movimentos, mas me distraio. Imagino outras vidas, devaneio na que tenho agora. Teço diálogos, respondo perguntas hipotéticas, me vejo fugindo de meus próprios planos. Considero o inconsiderável, me detenho, tento de novo. Eles se multiplicam por entre o caminho que se abre na água. Há algo indomável no percurso do meu pensar, e a inevitabilidade disso me conforta de alguma forma. Anseio pelo controle, mas sinto um certo prazer - esquisito, antagônico - quando ele não está no meu alcance.
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Without noticing, I slip into a light yet lingering malaise. Not a depression, more like a fascination for melancholia, which I turn in my hand as if it were a small planet, streaked in shadow, impossibly blue.
Patti Smith
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A sacola com a caixinha das alianças permanece lacrada sob a mesa da sala. A vendedora pediu para que voltássemos no futuro com nosso cachorro. Nosso recém-adotado vira-lata que ama outros cães, odeia humanos e já virou nossas vidas deliciosamente do avesso. Achamos graça porque não existe a menor possibilidade de levá-lo em um ambiente como uma loja de joias dentro de um shopping sem passar uma tremenda vergonha. Deixei a sacola sobre a mesa desde então, e não ousei abri-la. Todos os dias, detenho meus olhos ali e conjecturo sobre tudo que ela contém - meu próprio gato de Schrödinger. Ela contém muita coisa. Um salto no escuro. Meu pavor paralisante de saltá-lo e o abismo libertador que me engole. Um fechar de olhos e confiar. Mergulhar no desconhecido e despir-se das armaduras antes da queda livre. Tenho medo do que me sobra sem o escudo do controle, até mesmo no amor, mas algo me diz que, diante dele, já não a venho vestindo há um bom tempo.





Adorei o texto. Me fez lembrar do meu casamento, todas essas dúvidas e o salto no escuro que é, em definitiva, confiar em alguém com a nossa vida.
Espero que o casório seja lindo e que vcs aproveitem muito!!
Fascinante seu texto. Que bela analogia do controle ser como uma armadura...
ainda que seja (apenas) um assinar de papeis, desejo a voces um casamento que transborde amor, respeito e alegria.