Infrutífera
#65 - a obrigação de ser interessante (+ coisas vistas & lidas)
Não tenho nada brilhante a dizer. Ultimamente, quando abro o Substack - e tantos outros espaços na internet -, é assim que me sinto: esvaziada de contribuições. Infrutífera. Nenhuma grande opinião sobre O Assunto Do Momento (seja qual for), nenhum insight original, nenhuma crítica disruptiva ou ideia fora da caixa, nenhum ensaio afiado e mordaz sobre qualquer coisa da contemporaneidade. Rolo meu feed pela manhã e sou arrebatada por textos penetrantes, provocadores, sinto a agridoce inveja de quem escreve bem tomar conta de mim, um arroubo de inspiração misturado ao encantamento, mas ele não dura: quero me movimentar, mas em qual direção? O que tenho a dizer? Ou: o que devo dizer? O que estaria a altura de tudo isso? Não se engane - eu sei que há uma armadilha nessas perguntas. Enxergo-a, mas ainda me deixo levar pelas suas garras. Às vezes sinto que ainda estou em uma etapa muito primordial de formação, descobrindo partes elementares de quem sou e de quem quero ser, e acho que acaba por ser inevitável a admiração se confundir com um certo espelhamento, com uma medição injusta. Seria mesmo a minha própria imaturidade falando mais alto ou há um quê de vitrine-do-linkedin tomando conta dessa rede, onde só passa a valer, cada vez mais, quem prova ter potencial para ser a nova voz dos tempos modernos? Talvez seja um pouco dos dois. De todo modo, me sinto constantemente obrigada a ser interessante, sagaz, a desafiar o ápice da minha própria perspicácia. Nunca consigo. Não sou de reagir rápido; penso muito antes de dizer qualquer coisa, e às vezes o impulso de dizê-las se perde no meio do processo, soterrado pelos meus cálculos, pelos meus porquês. Vigiada de perto pela minha própria censora, rígida e cruel, me rendo a um silêncio resignado quando tenho coisas a dizer, e me obrigo a falar quando na verdade preferiria o silêncio. Demorei a entender que há um outro lado nessa moeda. Que talvez eu também goste de não ter nada a dizer. Há um certo alívio em encarar um não-saber, um alívio que abre espaço para ouvir com vontade, para absorver e ponto, sem necessariamente transformar cada pedaço do nosso repertório pessoal em algo autoral. Na escrita, na fala, nos encontros. Aqui, onde infelizmente a febre do algoritmo e dos multiformatos já fincou bandeira, é difícil não se deixar contaminar pela silenciosa competição da performance. Mas é preciso. Saber quando ouvir e o que ouvir. O que tomar como referência e o que deixar seguir rumo. Desenvolver nossos filtros, passagens e barragens. Olhar para a página em branco sem uma pressão desmedida para preenchê-la. Ou, melhor dizendo: preenchê-la sem pressão desmedida. Desvencilhar-se das garras da obrigação de ser brilhante, quando der, e permitir que palavras brotem dos lugares mais áridos que existem do lado de dentro.
Um beijo,
Mari
coisas vistas & lidas
resolvi reler Grande sertão: veredas, o clássico de Guimarães Rosa (Cia. das Letras, 2019), que havia lido meio às pressas para uma matéria na faculdade, já há uns bons 10 anos. que experiência maravilhosa pegar um livro tão poderoso para reler com mais repertório e maturidade - me apaixonei outra vez, ainda mais profundamente, por Riobaldo, Diadorim e o vasto sertão onde chove e floresce um mundo de palavras que não há igual;
Amanhã a esta hora, de Emma Straub (li no original para Kindle, ed. Riverhead, 2022), foi uma leitura gostosa, daquelas que você nem vê o tempo passar - me emocionei com as viagens no tempo da protagonista Alice, que explora suas possibilidades de vidas vividas ao retornar repetidas vezes aos seus dezesseis anos, tentando fazer mudanças que possam lhe conceder mais tempo, no presente, com o pai, que tem uma doença terminal;
estou de férias e passei algumas boas horas no aeroporto na companhia de I have some questions for you, de Rebecca Makkai (no original para Kindle, Penguin Books, 2023), que só entrou nessa lista a título de registro e não de recomendação: um thriller que se propõe a criticar uma porção de coisas - a febre do true crime, o movimento #MeToo, racismo, misoginia - e acaba por não criticar nem construir nada, além de contar com a condução da protagonista-narradora mais xoxa anêmica capenga insuportável da história (e que por algum motivo escolhi suportar por 400 páginas). fica o aprendizado para mim mesma, nos livros e na vida: deixar de ser besta e abandonar sem dó o que não estiver legal.



nas telas, o anúncio da MUBI de que Twin Peaks entra para o catálogo em junho me fez muito feliz e já estou num aquecimento para reassistir tudo, revisitando favoritos do David Lynch e assistindo pela primeira vez a alguns que faltavam - A estrada perdida (1997) é uma viagem surreal e quase esotérica através do tempo e do espaço que me arrebatou por completo em cada camada de mistério, além da trilha sonora que beira a perfeição;
diante de uma gravidez indesejada, homens normais vão comprar um cigarro e não voltam mais; o nosso divo, por sua vez, fez seu longa de estreia: Eraserhead (1977) - senti todos os desconfortos possíveis com esse sonho-pesadelo sombrio e perturbador, com direito até a um pouco de gore, e que já anunciava tanto da sua loucura genial que a gente tanto ama.
leia mais:
Água-viva
Na sessão dessa semana, digo à minha analista em um certo momento: me sinto jovem. E, beirando os trinta anos, tenho plena consciência de que sou. Racionalmente, é isso. Mas o verbo é outro aqui. Não sei: me sinto. Vem à minha boca um impulso de complementar minha própria fala, e acrescento, reformulo: me sinto muito mais jovem do que me sentia aos 18 a…
No papel
Às vezes, realmente é sobre o papel. Sobre coar um café, encher a caneca e depositá-la junto a ele na mesa. Sobre sentar-se diante do caderno, percorrer a capa com os dedos, abri-lo, procurar a primeira página vazia desajeitadamente. É sobre o papel. Sobre destampar a caneta, marcar a data de hoje no topo da folha, escrever as primeiras palavras com um …







sou muito parecido neste ponto: sempre desconfio que o que tenho a dizer não é relevante (talvez, nem para mim). mas, assim mesmo, desafiando meu próprio censor, ouso escrever. sem pensar tanto em quem vai ler (e menos ainda se vai gostar). criei esse compromisso comigo de publicar uma edição por semana, independentemente do formato. às vezes, sinto que os textos poderiam ser muito melhores, mas tento não me cobrar demais para além do prazo. tem dado certo até aqui.
Não ter o que dizer quer dizer algo, Mari...
Eu sinto a mesma coisa por aqui, me identifico integralmente com seu texto e sua provocação.
É impossível desvincularmos qualquer atividade da performance, seja online ou off-line, ainda haverá um saldo mental para checarmos. Algumas coisas que me fazem querer continuar é a ideia. Nunca mate ou deixe a ideia desvanecer. Escreva, que seja no papel, mas o faça! Compartilhe conosco posteriormente, mas deixe sua alma se alimentar daquilo que te fazer vibrar em uma sintonia diferente nessa vida caótica que impuseram em nós.
Bom demais te ter aqui!
Beijo!