Fui uma criança e adolescente questionadora. Não rebelde - questionadora. Existe uma diferença importante. Nunca fui de contrariar ou bater o pé: era aquiescente, obediente até. Nunca a que dizia não (mesmo quando deveria ter dito), mas sempre a que perguntava por quê. A verdade é que sempre estive muito em paz com o fato de simplesmente ter que fazer certas coisas, e as fazia, mas precisava entender suas razões. Os motivos, a lógica das coisas, os mecanismos. Em cada porquê, uma sede insaciável de entender como o mundo funciona. Os mistérios da vida que me desculpem, mas eu sempre gostei de descobrir tudo. Um termômetro para medir minha própria temperatura no mundo: o quanto estou com vontade de saber.
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Estou no meu primeiro dia de férias e passa um pouco das seis da tarde quando erramos uma saída no Rodoanel que adiciona 30 minutos ao nosso tempo de chegada em Taubaté, onde seremos padrinhos em um casamento no dia seguinte. Somos três no carro: eu, Fábio, e um amigo no banco de trás. Falamos desordenadamente sobre trabalho, sobre relacionamentos, sobre fofocas de gente conhecida. A neblina densa teima em não se dissipar enquanto caem os últimos resquícios de luz do dia, e o trânsito pesado traz uma camada extra de impaciência e lentidão ao trajeto. Trinta minutos extras por perder uma saída é o tipo de coisa do universo rodoviário com as quais não consigo me acostumar. Eventualmente pergunto: vocês já pararam pra pensar no Rodoanel? O que queria dizer é: realmente parar pra pensar nele. Não é um pouco absurdo que uma estrutura como o Rodoanel simplesmente exista? Que isso tenha sido construído? Quem pensou nisso? Nenhum dos dois engajou muito na minha pergunta, mas a obsessão se alojou na minha cabeça. Eu tenho isso: momentos de fixação com assuntos extremamente aleatórios e desconectados das minhas áreas do saber. Pesquisando no celular enquanto percorríamos a estrada abarrotada, descobri que a primeira ideia de uma via perimetral similar a essa surgiu na década de 50, mas que só começou a ser construída em 1998 e que, na verdade, ainda nem está pronta. São quatro trechos no total, com aproximadamente 177km de extensão e conectando 16 municípios. O trecho norte do Rodoanel, que ainda está em construção, atravessa a Serra da Cantareira, área de preservação ambiental, o que adicionou uma camada polêmica às obras. Descobri também que não existem postos ao longo de sua extensão, o que dificulta muito a vida dos motoristas em dia de congestionamento (posso comprovar, penso, segurando com exasperação a vontade de fazer xixi). Descobri, por fim, que o pai da Suzane von Richthofen era diretor do projeto do trecho sul, e que seu assassinato atrasou as obras. Descobri tudo isso, não vou usar para nada, mas me dei por satisfeita.
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Enquanto paramos em um posto de gasolina mais adiante, me dou conta de que não sei dizer quando tinha sido acometida por uma destas pequenas obsessões por aleatoriedades pela última vez.
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Alguns dias depois, vou ao MASP sozinha. É um dos meus passeios favoritos: visitar exposições na minha própria companhia, sem horário para chegar ou ir embora. Gosto porque saio inspirada, claro, mas acho que é mais do que isso: gosto porque saio aterrissada. O efeito é o mesmo de um bálsamo. Um retorno a um ponto de partida. Adoro circular pelo salão do acervo no prédio principal, transitar por entre as obras em seu percurso labiríntico que recusa a tradicional disposição em paredes. Dessa vez, sou detida por um quadro específico que me faz diminuir o passo e, sem me atentar ainda ao seu nome, muito menos ao texto de apoio (um clássico), conjuro um contexto para a cena sombria, escura e um tanto letárgica diante de mim: um médico visita um paciente em seu quarto de sanatório, enquanto este, desesperançoso, já um pouco vazio por dentro, se resigna à sua cama e à sua camisa de força, quase se fundindo a ela. O médico lê algo em voz alta - uma carta, talvez? -, mas o paciente permanece apático, distante, impenetrável. Adio o momento de revelar a mim mesma seu verdadeiro contexto, e por um instante me dou por satisfeita com a minha própria interpretação imaginada. Descubro, enfim, que esta é Paul Alexis reading a manuscript to Zola, de Paul Cézanne, e que, como seu nome bastante literal sugere, nada tem a ver com um médico em sanatório: apenas Paul Alexis e Èmile Zola lendo um manuscrito juntos, na casa de Zola. Cézanne simplesmente não teve tempo de terminar a pintura antes da guerra franco-prussiana, de modo que Zola - o paciente, na minha versão das coisas - é apenas uma versão inacabada: sem expressão, sem contornos definidos, um rascunho de vestimenta que permaneceu descolorida. Acho que prefiro minha versão, mas fico levemente obcecada com o fato de que esta obra jamais será algo concluído, com as guerras que interrompem o que é mundano e o que não é também, com o círculo social de Èmile Zola, um autor que adoro. Passo dias imersa em leituras sobre tudo isso, e guardo-as em meu compartimento interno favorito: o das descobertas que conto para mim mesma como quem conta um segredo imperdível, sem implicações do lado de fora.
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Penso no quanto esse compartimento ficou fechado ultimamente. Não trancado: apenas fechado. Tenho a chave, mas não precisei abri-lo. Por que abriríamos uma gaveta que não contém quase nada, se não para preenchê-la de coisas? De vida. Quase vazia e, em outros tempos, tão abarrotada. De alguma forma, o cansaço foi se tornando meio crônico e me vi sem novas descobertas coletadas para guardar. Catava-as por aí como quem cata conchas na beira do mar e leva para casa. Um inventário de perguntas. De porquês. De informações preciosas. Passaram a criar raízes na areia úmida, intocadas.
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Já falei aqui algumas vezes de Linha M, da Patti Smith, e do lugar quase sagrado que essa leitura tem em meu repertório. Agora que paro para pensar nisso, me dou conta de que o efeito que essa leitura tem em mim é muito similar ao dos passeios despretensiosos por exposições de arte. Uma função meio espiritual de retorno. Um mergulho e, então, um retorno à superfície para uma lufada necessária de ar. Um retorno a mim. Não havia como não recorrer à esta minha bíblia pessoal em um momento tão dolorosamente necessário de descanso e reconexão. Me dou conta, então, de que este ano já li três obsessões literárias que Patti menciona incontáveis vezes em Linha M: "Crônica do pássaro de corda", de Murakami, “O Mestre e Margarida", de Bulgákov, e agora sigo para "2666” de Bolaño. Circulo suas indicações e paixões, às vezes sem nem perceber, e me vejo tão obcecada quanto ela. Patti discorre sobre sonhos, cafés, encontros inusitados. Diálogos, sortes e oportunidades que surgem da sua disposição à descoberta. Quem é ela senão uma pessoa fundamentalmente curiosa?
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Eu reluto em usar a palavra curiosa para me descrever, mas ela sempre está presente nas descrições de todas as minhas pessoas favoritas do mundo. Acho que simplesmente não me sinto boa ou interessante o suficiente para merecê-la - mas me orgulho do meu inventário de curiosidades e fixações e preservo-o como quem preserva relíquias. O submundo dos microcontos de terror na internet. Os melanocetos e as fossas abissais (um assunto que amo, confesso, e retomo com frequência). Jogadas de xadrez. Química orgânica. Acrobacias de ginástica artística. A Galeria Tunga em Inhotim - passei dias vendo absolutamente tudo que havia para se ver sobre ela na internet depois de visitá-la. Como consertar fechadura emperrada de porta (consertei). Como consertar torneira vazando (consertei). De onde veio o homem da cobra. Como funciona uma produção de açafrão. Como funciona um buraco negro. Meus saberes aleatórios acumulados são mais eu do que qualquer coisa. Busco sinônimos, mas a curiosidade está por todos os meus cantos.
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A cada breve obsessão que me acometeu durante as férias, pequenos sopros e centelhas foram se acumulando no peito, nos olhos. Minhas anotações, minhas descobertas, meus bens mais preciosos voltando a encher caixas imaginárias. Ainda há um longo caminho para encontrá-las abarrotadas de novo. Não importa. A vida foi me fazendo assim, curiosa, e é curiosa que vou fazendo a vida. Fecho os olhos e sussurro mentalmente para mim mesma, meio como mantra, meio como prece, meio como promessa: jamais negligenciar minha curiosidade outra vez. É estranho: o saber tem o poder de transformar o que vejo no reflexo do espelho. Acho que esse é o tal do retorno.




o pai da richthofen ter morrido e atrasado a obra me pegou
Eu amo fazer isso também e sou muito grata em viver uma realidade tecnológica que posso matar minha curiosidade rapidamente.