Mergulho
#69 - corpo, movimento, performance, unidades de água
Poucos livros foram capazes de me alcançar em um nível tão individual quanto Esforços olímpicos. A leitura de qualquer coisa sempre vai pressupor uma vontade de imergir nas páginas, uma disposição ao mergulho, mas só às vezes a gente tem o privilégio de afundar tanto a ponto de tocar o chão da piscina com os pés - e tomar impulso para emergir de volta, transformado. Quando um dos melhores amigos de faculdade de Athena Chen - quase um reflexo autobiográfico de sua autora, Anelise Chen - comete suicídio, ela se vê às voltas com suas angústias e com o estado de inércia da sua própria vida. Existe ainda algo que não esteja destituído de sentido? Ela tenta concluir seu projeto de pesquisa acadêmica na área do esporte, que deveria tê-la arrancado desse cinismo e, ao invés disso, encontra-se cada vez mais distante da linha de chegada. A linha de chegada importa? Desempenho. Derrota. Desistência. Significantes cujos significados lhe parecem cada vez mais nebulosos. Athena relembra seus tempos de nadadora profissional na juventude e tenta dar um novo lugar às piscinas em sua vida: não como espaço de competição, mas de movimento. De cura. O lugar para gente como eu era a piscina. Gente como eu se entupia de barrinhas de granola e tirava sonecas na frente dos outros sem o menor pudor. Gente como eu ficava com as costas encurvadas. É como se em terra - com ausência da compressão da água - fôssemos incapazes de nos contrapor à força da gravidade.
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Os primeiros anos da minha adolescência se passaram na água. A gente treinava a tarde toda, todos os dias da semana, e competia ou fazia intensivos na maioria dos sábados ou domingos. Éramos cerca de quinze na minha faixa etária compondo o time. Eu carregava uma mochila imensa nas costas, sempre molhada por dentro. Pés de pato. Palmar. Toalha de banho. Touca, óculos, roupão. Chinelos. Shampoo, condicionador, escova de cabelo. Sacolas plásticas. Uma garrafa com água e maltodextrina para tomar durante o treino. Uma banana. Uma barrinha. Em casa, leite e whey protein no liquidificador. Depois, um sono profundo que às vezes durava horas. Até hoje, meus espasmos durante o sono se assemelham a braçadas. Os treinos eram intensos, exaustivos, invariavelmente. Tiragem de tempo. Tiros de cem metros. Longas séries com palmar e flutuador. Havia uma espécie de score interno que nos classificava pelas cores do semáforo. No verde, quem estava performando bem; no amarelo, quem precisava performar mais. No vermelho, sabíamos - eram aqueles que, na próxima temporada, seriam desligados da equipe. A cada ano, o grupo diminuía, e as competições se tornavam mais complexas. No início, campeonatos regionais, torneios de clubes. Depois, estaduais, nacionais. Competições internacionais. Só os melhores dos melhores iam ficando. Enquanto fiquei, estive sempre no verde, mas nunca fui uma das mais rápidas da turma. Sabia que minha classificação se devia a outra coisa: meu esforço, minha devoção, minha precisão técnica. Sempre fui uma boa aluna. A melhor, diria. Mas já sabia que eventualmente isso não bastaria. Meu corpo não tinha sido feito para performar - e, antes que chegasse a minha hora de ser convidada a me retirar, eu me retirei por conta própria.
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Tantas outras coisas se misturaram à água. Adolescência é um tempo estranho. Primeiras paixonites, primeiros beijos, o período quase coletivo de primeiras menstruações entre as meninas. Vergonha. Pertencimento. A natação não foi o centro da experiência: ela foi o contorno, o fio que me conduziu através de tantos estranhamentos. Eu olhava para o meu próprio corpo, dentro e fora do maiô, e não me reconhecia. Olhava para os corpos das minhas colegas e sentia vontade de me esconder todos os dias. Os quadris largos demais, o peito crescendo contra a minha vontade. Distante do corpo idílico de bailarina que eu sempre quis e também distante do corpo de atleta que as outras pareciam estar desenvolvendo. Os garotos em quem eu pensava pensavam em garotas diametralmente opostas a mim. Minha estrutura simplesmente não parecia certa para estar ali. Mal sabia eu que passaria a lutar contra ela por um tempo que pareceu imensurável - às vezes, ainda parece.
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Com base nas afirmações de Meuli, o historiador David Sansone argumenta que o esporte é um fóssil desse sacrifício ritual de energia. Desde que os esforços físicos da perseguição e do luto deixaram de existir, ficamos tentados a criar outras oportunidades para despender energia como demonstração de devoção. Quem gastar a maior quantidade de energia deve ser porque se esforçou mais e, portanto, merece comer.
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Passei o restante da minha adolescência e os primeiros anos da vida adulta em algo muito próximo ao sedentarismo, salvo pelas aulas de Educação Física que eu não conseguia atestados para pular e pelo hábito de andar a pé para fazer tudo que é possível. Eu não nasci para essas coisas, dizia, e recusava o exercício físico como quem recusa um convite inadequado. Fui de um extremo ao outro, como é do meu costume. Eu queria aniquilar tudo em que não pudesse ser excelente, e naquele momento minha dimensão física era uma evidência viva do meu fracasso. Meus hábitos alimentares passaram a incluir jejuns e compulsões diversas intercalados. Incontáveis manhãs de pressão baixa na enfermaria da escola. Eu me sentia frágil e vulnerável quase cem por cento do tempo, e queria um corpo que fosse prova disso. Pequeno, encolhido. Quebrável. E meu corpo se recusava a encolher. Eu era uma fraca presa em um corpo que teimava em aparentar saúde, mesmo com todas as minhas tentativas de arruiná-lo. Não saúde o suficiente para torná-lo uma potência - apenas o suficiente para ser disfarce. Ainda assim. Corpos e o que fazemos com eles. A vida do corpo, a vida da mente. Quando não há equilíbrio entre essas duas vidas, as coisas vão mal. Nosso bem-estar é um mecanismo supercomplexo de pesos e roldanas.
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Em meados de 2021, quando a vida começou a se parecer minimamente com a vida de novo, decidi inaugurar a recém-conquistada liberdade com uma missão: encontrar uma atividade física para chamar de minha outra vez. Durante a quarentena, ganhei quinze quilos e entrei para o time do colesterol alto, e precisava desesperadamente encontrar uma forma de me reaver com minha estrutura que não fosse pelas minhas vias sempre tão agressivas. Comecei a fazer aulas de funcional e kickboxing em um estúdio perto de casa, que logo se tornaram parte da rotina. No início, sentia como se minhas articulações estivessem lutando contra mim. Enferrujadas, agarradas à inércia. Alternar a rotação dos pés, dos quadris, dos ombros. Desenhar arcos no ar para um chute alto. Lutar exige coordenação motora, que nunca foi meu forte: não sei tocar instrumentos musicais, não sei andar de bicicleta se não for em linha reta, confundo esquerda e direita, reprovei duas vezes na prova prática da autoescola. O único lugar onde eu não me via descoordenada era a piscina. Depois dela, a recusa de tudo que se parecesse remotamente com ela, por tanto tempo. O tatame e os sacos de pancadas foram um lugar de reivindicação. De movimentos, de força, de ritmo. Chamá-los de meus. Vi minha estrutura encolhendo através do tempo, minhas medidas, minhas circunferências, e esperava que isso me trouxesse uma espécie de momento catártico, mas o que me levou até ele foi me ver tomando posse de mim mesma.
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Acabei por adicionar a musculação na equação para fortalecimento - mas muito a contragosto. O ambiente de academia sempre me causou um certo asco. As máquinas complexas, o público aficcionado, a mistura um tanto quanto assustadora de competição, flerte e suor no ar. Aos poucos, me familiarizei com os exercícios e com os aparelhos que precisava usar e o espaço ao meu redor já não me parecia mais tão terrível assim. Montei uma playlist cuidadosamente pensada para o momento do treino, que logo virou um dos meus favoritos no dia. Tomar posse de mim mesma: poder criar releituras do corpo que imaginei para mim. Os ombros se alargando, o músculos dando ainda mais volume à minha estrutura. Achar bonita a minha força recém-descoberta. Meu fôlego, minha resistência. A potência querendo abrir espaço por entre a superfície da pele.
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Saio de casa cedo, cedo demais, com a minha mala velha de guerra pendurada nos ombros. A manhã é fria e meu rosto sofre com o vento cortante. Mas sinto calor. A respiração um pouco descompassada, um nó instalado no meio do peito. Uma ansiedade - urgência. É estranho estar dentro de um maiô outra vez. Quando chego à academia, entro pela catraca que leva à piscina pela primeira vez. Há muito flertava com ela. Ela, que olha para mim pelas grandes janelas de vidro enquanto eu malho. Dentro de mim, um conflito - a vontade de mantê-la recusada em seu lugar simbólico de derrota e, ainda assim, um fascínio quase hipnótico que me puxa em sua direção. Curiosidade. Vontade de ser também Athena - e dar-lhe um novo lugar. No vestiário, os movimentos são intuitivos. Prender o cabelo num coque, colocar a touca de pano, colocar a de silicone por cima. Regular os elásticos do óculos. O lugar para gente como eu era a piscina, mas hoje também é a rua, o tatame, os aparelhos. Talvez ela já tenha um novo lugar e eu nem me dei conta. Deixo minhas coisas - pé de pato, garrafa d’água, chinelos - na beira da piscina, escolho uma raia e entro cuidadosamente. A água é morna, e o cheiro de cloro desbloqueia uma avalanche de memórias que me abraçam e me comprimem na mesma medida.
Inspiro, dou o primeiro impulso e saio piscina adentro.
O esforço traz ao corpo a experiência do “como se”, sangue novo pulsando nas veias. Suar, secar, reabastecer. Uma piscina limpa que brilha cintilante quando o sol reluz na superfície.
Penso no quanto a metáfora da água é um dos meus principais recursos na análise. Um mergulho, a travessia de um rio, um afogamento. A água, que por tanto tempo me fez imóvel, hoje é finalmente movimento.
Eu sou movimento.
Um beijo,
Mari
essa newsletter sobre coisas marombas da vida surgiu em grupo, e tem outras colegas queridas do substack, como a
, a , a , a e a falando sobre isso nesta semana também 🖤leia outras edições recentes da isto não é um telegrama:
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A espada e o elixir
༄ Gosto de nadar porque me sinto completamente no domínio do meu próprio corpo. Dito meu ritmo, minha força, minha velocidade; são variáveis claras, exatas, que não abrem margem para subjetividades. É como matemática: as fórmulas pressupõem resposta. Lógico. Certeiro. Seguro. Eu treinava para competir quando era adolescente e não me esqueço de nenhum dos…











Mari, acho muito bonito se reconhecer em uma atividade física. Que delícia ler sobre o cheiro do cloro e o olfato emocional. ♥️
Gostei muito e me identifiquei mais um tanto. Também fui uma adolescente "nadadora", mas ainda estou no processo de ressignificar esse lugar do esporte na minha vida. Tão difícil quanto necessário. Um beijo! :)